A terceira fase do projeto SoroEpi, uma iniciativa de cientistas e médicos da Universidade de São Paulo (USP) e da Secretaria da Saúde do Estado, mostrou que 17,9% da população acima de 18 anos do município de São Paulo foi contaminada pelo novo coronavírus — 1,5 milhão de pessoas, num total de 8,4 milhões. A proporção representa uma estabilidade com relação à segunda fase e, com isso, segundo os pesquisadores, a cidade passou pelo pior da pandemia.

Até domingo, São Paulo tinha 246,7 mil casos confirmados e 10.187 mortes por covid-19, segundo o boletim mais recente da prefeitura.

Na terceira fase do SoroEpi, que terá um total de seis, não houve mudanças significativas na proporção de infectados no município, afirma o biólogo e professor da USP Fernando Reinach.

“Se houve alguma alteração, ficou dentro do intervalo de confiança, de 95%. Podemos dizer que São Paulo deixou para trás a pior fase da pandemia”, disse hoje na apresentação dos resultados do projeto, um inquérito sorológico que rastreia a disseminação do coronavírus no município com apoio do Grupo Fleury, Ibope Inteligência, Instituto Semeia e Todos pela Saúde.

Esse terceiro inquérito envolveu 1.470 pessoas de todas as regiões da cidade. Assim como nos dois anteriores, o atual levantamento, realizado entre os dias 20 e 29 de julho, mostrou que os moradores de baixa renda (22%), negros (20,8%) são os mais atingidos pelo vírus. Entre as famílias de renda mais alta, 9,4% foram infectados.

Nesse terceiro levantamento, os pesquisadores realizaram dois testes diferentes em cada pessoa, em vez de um como nas duas fases iniciais.

Levando em conta o inquérito feito com apenas um teste, o Maglumi, da fabricante chinesa Snibe, a proporção de adultos contaminados na cidade saiu de 11,4% para 11,5% de junho para julho. Ao introduzir o segundo teste, o Elecsys Sars-Cov-2, da Roche, a proporção combinada entre os dois testes, foi de 17,9%, num intervalo de confiança que vai de 15% a 21%.

As amostras de sangue das pessoas testadas na segunda fase foram, então, submetidas a esse segundo teste, da Roche. Os resultados preliminares apontaram que a proporção ficou em torno de 18%. Essa segunda testagem da fase dois ainda vai ser finalizada mas a expectativa é que a proporção deve se manter, segundo Celso Granato, diretor clinico Grupo Fleury.

Granato explica que o aumento da taxa de infectados ao se introduzir o segundo teste não significa que houve um salto de infectados de junho, época do segundo inquérito, para julho. “Cada um dos testes mede anticorpos contra pedaços diferentes do vírus. Não houve aumento de uma fase para a outra, mas melhorou a forma de detectar os infectados”, diz.

Os números mostram que houve estabilidade na proporção de moradores infectados pelo coronavírus mesmo com a reabertura da economia no município, embora seja preciso mais algumas semanas para saber como essa taxa vai ficar.

“Não vimos grandes mudanças nos 35 dias que separam as fases dois e três do inquérito sorológico. Mas é cedo para tirar conclusões”, afirma Reinach. Isso porque demora cerca de 20 dias para os casos chegarem aos hospitais e entre 30 e 40 dias para que novas mortes sejam notificadas.

Questionados sobre se com quase 20% de infectados o município estaria próximo da chamada imunidade de rebanho, os pesquisadores afirmam que isso pode ser possível, mas a questão é complexa especialmente porque ainda não se sabe qual a porcentagem de infectados resultaria em imunidade de rebanho no caso do novo coronavírus. “Pode ser 20% ou 60%, não sabemos”, afirma Reinach.

A literatura científica mostra que para cada pessoa com anticorpos contra determinada doença, outras 2 a 2,5 tiveram contato com o agente causador, mas tiveram uma reação chamada celular, sem criar anticorpos. Nesses casos, a imunidade celular foi competente e o corpo não teve que recrutar os anticorpos para se defender.

“Se há 20% de infectados pode-se chegar a 50% de pessoas atingidas em São Paulo, mas é uma estimativa puramente baseada em literatura. A questão é muito mais complexa e difícil de definir em grande escala”, afirma Granato.

Para Fernando Reinach, na atual fase da pandemia no mundo, a discussão sobre imunidade de rebanho vai ganhar mais força, em especial nos países mais pobres, que podem ter uma grande parcela de infectados antes da chegada de uma vacina eficiente contra a doença.

(Esta reportagem foi publicada originalmente no Valor PRO, serviço de informações e notícias em tempo real do Valor Econômico)

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