SÃO PAULO — Em meio ao avanço das novas variantes do coronavírus no estado, São Paulo bateu nesta segunda-feira o recorde de internações por Covid-19 desde o início da pandemia. O maior número registrado até então era de julho de 2020. Por isso, o governo deverá adotar novas medidas de endurecimento da quarentena já na quarta-feira, e o Centro de Contingência fez recomendações de políticas de restrição de movimentação que poderão entrar em vigor ainda esta semana.

— Temos às 13h de hoje 6.410 pacientes internados em UTIs. É importante lembrar que nós tínhamos, em julho de 2020, na primeira onda, a maior ocupação de leitos, atingindo 6.257. Portanto, ultrapassamos o maior número da história da pandemia em São Paulo — ressaltou o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn.

Os dados apresentados hoje pelo governo paulista apontam uma queda de 9,5% no número de novos casos nesta semana em relação à anterior. Foram 9.275 casos contra 8.573. No entanto,  o número internados teve um salto de 5,5%. Na semana anterior eram 1.457 novos hospitalizados e, nesta, 1.538.

Por conta do aumento de internações, o secretário alertou que está ocorrendo “desobediência” por parte da população.

— Temos de continuar a seguir as normas e ritos sanitários. O controle da pandemia passa pelo segmento das normas como manter o distanciamento, usar máscaras, higienizar as mãos e evitar aglomerações. Independente de cepas mutantes, a transmissão ocorre principalmente pelo fato de não estar ocorrendo obediência às normas. Essa semana os números merecem atenção maior do que nas últimas — criticou o secretário.

O coordenador-executivo do Centro de Contingência, João Gabbardo, informou que o grupo apresentou novas regras de flexibilização da atividade econômica para o Plano SP. As medidas têm como objetivo endurecer a quarentena.

— Elas vão tratar de redução da mobilidade, da movimentação das pessoas, o que podemos fazer nesse momento para reduzir a taxa de transmissibilidade. Sendo variante ou não, a forma de reduzir a transmissão é a mesma: diminuir a possibilidade de contato entre as pessoas — afirmou.

Apesar do registro de alguma estabilização em novas internações, frisou Gabbardo, a duração das internações vem aumentando:

Araraquara:Duas variantes circulam no município

— Mesmo sem um aumento muito significativo de novos casos na UTI, a permanência desses pacientes na unidade tem sido maior. Por isso temos um número bem acima da expectativa de quando analisamos os dados de novas internações — afirmou Gabbardo.

Paulo Menezes, coordenador do Centro de Contingência, afirmou que os integrantes estão discutindo se serão necessárias “medidas complementares” ao plano atual diante do aumento de internações.

— Estamos acompanhando a situação, não só no interior, mas em todo o estado, em cada região. E realmente algumas (regiões) apresentam uma situação bem mais preocupante que as demais, em relação à taxa de ocupação de UTI e às taxas de transmissão, indicadas através da incidência de casos novos e internações a cada 100 mil habitantes.

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Novas cepas preocupam

Análise da Info Tracker, ferramenta desenvolvida por cientistas de dados da USP e da Unesp para monitorar o avanço da pandemia em 92 municípios de SP, também destaca o exponencial crescimento de internados no estado. Segundo um dos desenvolvedores da plataforma, Wallace Casaca, a situação na Grande SP está mais crítica em Santo André, Osasco e na própria capital paulista. Só na região metropolitana observou-se um salto de 5% no número de internados de uma semana para a outra.

Em Santo André, no ABC Paulista, o aumento geral de internações foi de 31% nesta semana em relação à anterior. Em Osasco, o salto observado foi de 28%. Os dados preocupam principalmente porque podem estar relacionados à circulação das novas variantes, na opinião de Casaca.

—  O aumento exponencial (nessas cidades) é muito agressivo. Ele pode dobrar ou triplicar a curva (de internados) em questão de dias, por isso é tão perigoso. Esse crescimento começou a ser observado na semana passada. Tivemos um primeiro pico no início do ano por conta das festas e, depois disso, teve uma inflexão, mas (agora) voltou a aumentar  —  explica.

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Casaca chama atenção, por exemplo, para as internações no Hospital Municipal da Brasilândia, Zona Norte da capital, onde o aumento nos últimos sete dias foi de 13%, passando de 239 para 270. O complexo é um dos maiores da cidade em atendimento a pacientes com Covid-19, ficando atrás somente do Hospital das Clínicas, da USP, que atualmente tem 261 hospitalizados com o novo coronavírus.

— Araraquara (interior de SP), em questão de dias, dobrou a curva de internados. No começo de fevereiro, tinha cerca de 60 pessoas e, no dia 19, data do pico, foram 113. Quase dobrou em apenas 20 dias — lembra.

Para o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina de São Paulo, ainda é cedo para falar em aumento de internações em decorrência das variantes que circulam no estado. No entanto, ele ressalta que SP ainda está colhendo frutos das aglomerações registradas no fim de 2020 e início deste ano.

— É uma sequência que começou com o feriado de 7 de setembro, depois passou por 12 de outubro e 2 de novembro. Em seguida, tivemos eleições, quando prefeitos afrouxaram e não teve nenhuma medida antieleitoral. E depois teve o Natal, que eu classifico como um período catástrófico, porque apesar das orientações várias famílias romperam (os protocolos) e mostraram o quanto a aglomeração é um fator para a transmissão. Depois ainda tivemos ano-novo e as festas clandestinas de carnaval. Dá para atribuir muito mais (às aglomerações), sem dúvida, mas é mais bonito falar que é variante porque você tira todo o comportmento inadequado —  critica.

Ainda segundo o epidemiologista, o que também vem chamando atenção nessa fase da pandemia é o aumento “generalizado” da circulação viral, além de óbitos em pessoas mais jovens.

— Agora o aumento no país inteiro. Outro fenômeno é que antes as mortes ocorriam em pessoas que já tinham doenças prévias, mas agora parece que a gravidade é maior, pois os registros estão em pessoas mais jovens. Ou seja, a contaminação e a transmissibilidade estão muito maiores. O caso das variantes é um jogo: elas surgem porque a transmissão é alta e, quando é baixa, a chance de ter mutação do vírus é pequena. Agora nós ficamos nesse jogo que não sabemos qual é exatamente, e a situação vai só piorando.

Araraquara

Araraquara, no interior do estado, é um dos exemplos de cidades que vêm enfrentando dificuldades para conter a Covid-19 e as novas cepas do coronavírus. No último domingo, com UTIs lotadas, a cidade entrou em lockdown. Até meia-noite de terça-feira, as pessoas só poderão sair de casa para buscar atendimento médico, comprar medicamentos ou trabalhar em serviços essenciais. Supermercados só podem funcionar com entregas domiciliares. Postos de combustíveis, restaurantes, bares e demais estabelecimentos comerciais permanecerão fechados. Os ônibus de transporte público não irão circular.

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Araraquara tem 12 casos confirmados da variante brasileira do coronavírus,  detectada pela primeira vez em Manaus. A cidade já havia adotado um lockdown mais brando, mas não foi suficiente. Segundo a prefeitura, durante todo o ano de 2020 o município registrou 92 mortes por Covid-19. Este ano, em apenas 45 dias, foram 75 óbitos pela doença.

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