O movimento de revitalização do centro antigo de São Paulo não chegou ao Parque da Luz, na região central da cidade. Ele está mais para a vizinha cracolândia do que para o prédio de concertos da Sala São Paulo. A água suja no lago e a poluição da cidade incrustada nas estátuas são como as marcas do tempo alterando o rosto que um dia foi jovem.

A analogia serve também para trabalhadoras do Parque da Luz. Mulheres que deixaram de ser novinhas há algum tempo, algumas acima dos 60 anos e na faixa de risco do novo coronavírus, que se prostituem para clientes ainda mais velhos.

A covid-19 levou à quarentena, que levou ao fechamento do parque. Mas, assim como as carpas coloridas resistem à sujeira da água do lago, parte dessas mulheres continuam tentando a sorte na grade que cerca o local. Elas não têm alternativa.

O programa em camas imundas de hotéis de quinta categoria rende os R$ 30 que pagam um PF (prato feito) e a condução. Ficar em casa não é uma alternativa. Arriscar a saúde é uma rotina. Enquanto houver cliente, vai haver prostituta no Parque da Luz.

É verdade que elas estão em menor quantidade. Em sábados comuns o movimento é grande: “Ah, umas 50, 60 prostitutas passam o dia aqui quando o parque está aberto”, garante Sheila, de 70 anos.

Com a raiz do cabelo por fazer, a paulistana tenta esconder os fios brancos com uma flor de plástico acoplada a uma presilha. “Nunca trabalhei com outra coisa, então não ganho aposentadoria. Vivo aqui, vendendo o corpo para sobreviver. Já estou velha, mas ainda dou um caldo, viu? Meus clientes são fiéis. O problema é que eles são velhos, também, e agora não podem sair de casa. Aí me fodo”, diz antes de demonstrar resignação.

Moro sozinha num puxadinho na zona leste. Cortaram minha luz há um tempão. Não tenho medo desse vírus, não. Se me matar, vai ser até bom, já vivi bastante. Agora, deixa eu trabalhar.
Sheila

Os bancos do Parque da Luz, sempre ocupados por prostitutas, estão vazios por causa da covid-19 - Gui Christ

Os bancos do Parque da Luz, sempre ocupados por prostitutas, estão vazios por causa da covid-19

Imagem: Gui Christ

Falta de cliente quase termina em porrada

No primeiro sábado de parque fechado, nem dez mulheres disputavam os poucos homens que por ali passavam. “Não tem mulher, mas também não tem homem, como a gente vai fazer?”, questiona Cleo. “Não gosto de falar a idade, coloca mais de 40 anos”.

Mineira, ela mora em uma ocupação no Grajaú, zona sul de São Paulo e, conta: o movimento começou a cair no começo da semana passada – e, de lá para cá, só piorou. “Na sexta-feira, cinco prostitutas brigaram pelo mesmo cliente, acredita? Quase saiu porrada”.

“A gente está desesperada. As meninas brigam, mesmo. Ontem, tive sorte. Quase oito da noite, estava indo embora, e vi, de longe, um cliente antigo chegando, segurando um copinho de café. O problema é que todas as outras meninas também viram. Não tive dúvida, saí correndo. Ele olhava para o lado e eu tampava a visão dele. Aqui é disputa mesmo, ‘fia’. Ele me pagou R$ 30 e eu consegui comprar arroz e feijão. O resto, gastei com a condução. Mas, pelo menos, tenho comida para uma semana. Se ele não tivesse aparecido, não ia ter o que comer”.

Antes de o último cliente de sexta-feira aparecer, Cleo estava há uma semana sem fazer programa. Ainda assim, precisava gastar diários R$ 20 no trajeto casa, centro, casa. Assim como todas as outras garotas de programa ouvidas pelo UOL, Cleo pede: “Só não mostra meu rosto, por favor”.

E assim será: ela tem cabelos cacheados, loiros-amarelados, sempre presos num coque. Nos dois dias em que conversou com a reportagem, usava vestidos floridos e uma rasteirinha prateada, que combinava com o esmalte cintilante das unhas das mãos e dos pés.

A maquiagem é carregada – sombra verde e batom vermelho – e, numa sacola de lona, ela carrega um kit de prevenção: além de camisinha e PEP [profilaxia pós-exposição]. Em tempos de covid-19, Cleo leva álcool em gel e duas máscaras de proteção que um amigo, enfermeiro, conseguiu. “Tento explicar para o cliente que, comigo, ele vai estar protegido. Não adianta, ninguém sai de casa”.

Interior do Parque da Luz está sem público e as prostitutas que fazem ponto no local - Gui Christ

Interior do Parque da Luz está sem público e as prostitutas que fazem ponto no local

Imagem: Gui Christ

Cleo explica que, mesmo com a PEP na bolsa, não usar camisinha é impensável. “Quando o cliente insiste muito e eu estou precisando de grana, coloco a feminina e ele nem percebe. Mas, vou te dizer, a maioria pede. [Os homens] acham que a gente tem doença”, explica.

“Peguei a PEP no posto de saúde depois de quatro clientes terem me forçado, no sexo, a tirar a camisinha. Um deles apertou meu pescoço, me sufocou mesmo, e arrancou. Ali me senti suja, doente, me senti horrível. Com a PEP, se eu passar por isso, é mais seguro”.

Enquanto conversa com a reportagem, Cleo é abordada por um homem de 80 anos que vestia calça social grafite e uma camisa branca encardida. Pergunta o valor do programa e, ao ser questionado sobre o coronavírus, ri: “Se for para morrer, que seja bimbando”.

Só Deus sabe quando vai reabrir

Tensa, uma mulher de 55 anos envolta por um vestido tubinho vermelho, pintada de blush, também vermelho, e erguida sobre um salto plataforma “porque as pernas não aguentam mais salto agulha” pergunta ao guarda do parque qual a previsão de reabertura. A resposta é curta: “Numa data que só Deus sabe”.

Glória (nome fictício) insiste, algumas vezes, que a reportagem não a fotografe. “Só dou entrevista se você mostrar o que tem dentro da mochila”.

Desejo atendido, mas não adianta. Desconfiada, a garota de programa dá respostas curtas, zero sorrisos e é pouco simpática. Garante que o coronavírus pouco a importa e que o que tem tirado-lhe o sono ultimamente é a dificuldade para vender uma casa que tem em Linhares, no Espírito Santo.

A família de Glória continua em sua cidade natal, e “Deus o livre, tenho filha, tenho neta, ninguém pode sonhar que venho para cá. Já faço isso há um ano mais ou menos”. “Não sei se vou conseguir me manter se o movimento continuar assim. Eu não faço anal, né? Então, vem menos gente ainda atrás de mim. O parque não vai mais abrir, mas vou continuar a vir para cá. Vai que consigo alguma coisa enquanto não vendo a casa”, diz.

Cada uma das prostitutas do Parque Jardim da Luz tem suas restrições: Cláudia, de 42 anos, por exemplo, não beija os clientes na boca – já avisa logo de cara.

A prostituição, para ela, é a última opção entre os empregos que tenta conseguir diariamente: passa boa parte do dia entregando currículo em empresas de telemarketing ou faxina e, só à tarde, corre para o parque.

“Moro com minha mãe e minha filha. Elas não sabem que vendo meu corpo. Eu trabalhava numa empresa de telemarketing e, no fim do ano passado, fui demitida. Não contei pra ninguém: para minha família, tô lá todo dia”, diz.

“O movimento aqui, desde que explodiu essa história de coronavírus, caiu uns 90%. Me pergunto o tempo todo como vou sobreviver, ainda mais agora com o parque fechado”, diz. Cláudia tem cabelos longos e loiros, compõe uma calça legging desbotada com uma regata vermelha.

Nos pés e nas mãos, destaca-se o esmalte lilás cintilante. No rosto, vê-se poucas rugas, mas a expressão de apatia se destaca. Ela sai, todos os dias, de Rio Grande da Serra, no ABC Paulista, para trabalhar no centro. “Se continuar assim, não vou mais conseguir vir. Não tenho reserva, como vou pagar a condução?”.

Ela conta que a maioria dos clientes que atende são idosos e, por medo da doença, nem de casa estão saindo. Com razão. “Eu também morro de medo de pegar esse vírus, mas não tenho outra renda, vou comer o quê? Se eu não fizer programa, não tenho o que levar para casa. Eu trabalharia, se pudesse, com qualquer outra coisa. Mas não consigo. Quando estou desesperada por dinheiro, para sobreviver, faço programa. Antes, eu era prostituta de apartamento, sabe? Só que comecei a envelhecer e a concorrência ficou cruel. No mesmo apartamento, tinha muita menina mais jovem, mais magra, linda mesmo. Comecei a tirar só para pagar a condução, aí desisti. Aqui a concorrência é mais legal”, afirma.

Cláudia diz que a prostituição, em bons períodos, lhe rende “nem meio salário mínimo por mês”. Por programa, cobra entre R$ 20 e R$ 30. “Tem cliente que tenta negociar, mas eu tento manter sempre o preço maior. O problema é que se não vou com a cara do sujeito, nem saio. Evito sair com homens que estão bêbados ou drogados, tenho medo. E, logo de cara, já falo: ‘só faço com preservativo e não beijo’. Não gosto de pegar saliva de ninguém. Se ele não quiser, saio no lucro”.

“Espero que melhore porque emprego, ninguém te dá”

De uns cinco anos para cá, camisinha também é inegociável para Rosemeire, de 44 anos. Isso porque, em 29 anos de prostituição, contraiu HPV, hepatite B, herpes e sífilis – esta última ainda permanece em seu sangue e dá sinais sempre que a imunidade de Rosemeire cai. “Sinto febre, ardor no olho e olha aqui, tá vendo essas feridas, elas aparecem. Agora, aprendi: programa só com camisinha, pode insistir o que for”.

Nascida em Barretos, no interior de São Paulo, Rose veio para a capital aos 15 anos, após a morte da mãe. Hoje, aparenta mais idade do que diz ter. Pinta os cabelos, cacheados e cheios de frizz, de loiro. Desde a adolescência trabalha como garota de programa. E garante: em 29 anos de prostituição, nunca teve tão poucos clientes. “Já passei fome, já morei na rua. Quando não tenho o que comer, peço R$ 1 para ir até o Bom Prato. O problema é que agora, com esse vírus, não existe uma ideia de melhora. Pelo menos, quando o parque tá aberto, alguns coreanos que moram aqui por perto dão uma grana pra gente comer”, diz.

Rose espera por clientes, todos os dias, no mesmo lugar – um tronquinho que fica no chão do parque. Na semana passada, atendeu apenas quatro homens em sete dias – todos no início da semana. “Não tenho coragem de ficar na rua porque tenho medo de entrar no carro dos caras. Aqui, a gente conversa e aí vai para algum hotel ao redor. O problema é que agora até os hotéis estão fechando”.

A partir de terça-feira (24), todos os estabelecimentos não essenciais de São Paulo, incluindo hotéis, deverão ser fechados por decisão do governo do Estado. Além do parque, as garotas de programa da Luz perderão, também, os lugares onde atendem aos poucos clientes que ainda restam.

Rose, que mora em um quarto de pensão pelo qual paga R$ 500 por mês, se diz desesperada com a situação. “A gente vai levando a vida para frente. Preciso comer e pagar meu aluguel e, para isso, só melhorando. Emprego, ninguém te dá”.

Não só pela doença o covid-19 será questão de vida ou morte para estas mulheres.

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