Criminosos fortemente armados invadiram Araçatuba, a 521 km da capital paulista, na madrugada desta segunda-feira (30), para explodir três agências bancárias e espalharam terror, fazendo moradores reféns, explodindo bombas e ateando fogo em veículos na fuga. Três pessoas acabaram mortas na ação.

Ao menos quatro pessoas ficaram feridas e estão na Santa Casa da cidade. Segundo a PM, um morador de rua foi atingido pela explosão de uma das bombas deixadas nas ruas e teve os pés e uma das mãos decepados.

Pedestres e motoristas foram abordados pela quadrilha e feitos reféns na hora da fuga. Vídeos que circulam pelas redes sociais mostram pessoas sentadas no meio da rua, andando a pé e amarrados em tetos de carros, como escudos humanos.

A quadrilha fugiu após a ação rumo ao bairro rural Engenheiro Taveira. Não foi divulgado o valor roubado. Segundo a polícia, houve confronto com os criminosos e trocas de tiros em ao menos dois locais. Até a manhã desta segunda-feira (30), três suspeitos haviam sido identificados —um morreu, outro ficou ferido e um terceiro foi detido.

Um efetivo estimado em 380 policiais civis e militares estão na cidade para tentar prender outros integrantes da quadrilha e avançar nas investigações do crime. O comandante-geral da PM, Fernando Alencar Medeiros, também se deslocou para o local.

Dois helicópteros da PM sobrevoam a região e equipes do Gate, especialistas em explosivos, estão analisando o material deixado pelos bandidos. Sabe-se, até agora, que os criminosos usaram Metalons, a superdinamite caseira, acionados a distância por celulares.

Foram deixados explosivos em pelo menos 20 pontos da cidade, incluindo um caminhão carregado com emulsão em frente a uma das agências que foram atacadas, segundo a polícia. Durante a fuga, os criminosos deixaram para trás munição e armas de grosso calibre, dentre elas fuzis calibre .50 e 7.62 mm, além de “miguelitos”, que são artefatos de metal utilizados para furar pneus de veículos.

Até o momento, a polícia confirma a mortes de três pessoas na ação, entre elas um criminoso e um homem que estava dentro de um carro filmando a ação dos bandidos. Ele teria levado a esposa para casa e retornou para registrar o que estava acontecendo na cidade.

A exemplo do que aconteceu em outros ataques semelhantes, a quadrilha atirou para o alto, usou explosivos e colocou fogo em veículos para dificultar o acesso dos policiais. Rodovias foram bloqueadas por veículos incendiados e motoristas tiveram dificuldade de acesso à cidade. Além disso, o grupo utilizou um drone para monitorar a movimentação.

Segundo o coronel Camilo, mais de 20 criminosos e dez veículos estiveram envolvidos na ação. “Nesse momento na região de Araçatuba temos entre 350 e 400 homens e dois helicópteros Àguia. Estamos vasculhando toda cidade”, disse o coronel.

A quadrilha também abandonou carros usados no roubo em rodovias da região. A polícia suspeita que os criminosos trocaram de veículos para escapar.

A ação surpreendeu quem circulava pela cidade durante a madrugada. “Mais de 70 pessoas ficaram na minha loja. Nós nem dormimos. O centro está lotado de bombas, todo mundo ficou com muito medo. Provavelmente, quem trabalha no centro não vai conseguir fazer nada hoje”, disse o empresário Arnaldo Santos, dono de uma loja de skate e um bar. Há bombas abandonadas nas esquinas junto aos estabelecimentos dele.

A jornalista Priscila Andrade, que mora no centro, próximo ao local do ataque, ficou uma hora e meia abaixada dentro de casa para se proteger dos tiros.

“Foi assustador, nunca passei por algo assim na vida. Os criminosos estavam fortemente armados e atirando para que as pessoas não saíssem às ruas. Foi como um filme de terror”, disse ela, que chegou a fazer uma live na madrugada para relatar o caso.​

O prefeito de Araçatuba, Dilador Borges (PSDB), pediu que a população fique em casa nas próximas horas para não correr riscos. As aulas nas escolas municipais e estaduais foram suspensas nesta segunda.

“Peço que a população se mantenha em casa. O mais importante é preservar as vidas das pessoas”, disse.

A Associação Comercial de Araçatuba também orientou que as lojas não abram as portas na região central, já que existem várias bombas instaladas em diferentes ruas da cidade.​

Linhas de ônibus foram deslocadas para não passarem pela região central e um posto de vacinação na localidade foi fechado.

Em outubro de 2017, uma quadrilha assaltou uma empresa de transporte de valores na cidade e matou um policial civil durante a ação. Os assaltantes utilizaram explosivos para abrir o cofre da empresa e, durante a fuga, atiraram no quartel da Polícia Militar e colocaram fogo em dois caminhões na rodovia Marechal Rondon para impedir a perseguição de policiais.

Araçatuba, que tem cerca de 200 mil habitantes, é a 33ª cidade atacada desta maneira desde 2018. Assaltos desse tipo, realizados por quadrilhas especializadas, fazem parte do chamado “novo cangaço”. São praticados por criminosos fortemente armados, em grupo de 15 a 30 homens, que chegam a cidades de pequeno e médio portes, durante a madrugada, em comboios de veículos potentes.

Em julho deste ano, uma quadrilha fortemente armada invadiu Jarinu, a 75 km da capital paulista, para assaltar uma empresa do ramo de joalheria localizada em uma chácara, na zona rural da cidade. Ninguém ficou ferido.

Durante a fuga, houve troca de tiros entre a quadrilha e a polícia na altura de Campo Limpo Paulista e na estrada entre Jarinu e Atibaia.

Em abril deste ano, uma quadrilha atacou agências bancárias, atirou em lojas e em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Mococa (a 267 km da capital). Mascarados e atirando para cima e em direção ao comércio local, os criminosos usaram explosivos para roubar o cofre de uma agência da Caixa Econômica Federal.

Ações semelhantes ocorreram recentemente em Criciúma (SC), Cametá (PA) e em cidades do interior de São Paulo, como Araraquara, Botucatu e Ourinhos.

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