Em setembro de 2019, quando lançava “Escravidão”, o primeiro volume de sua trilogia sobre o tema, o jornalista e escritor Laurentino Gomes disse que “precisamos de uma Segunda Abolição”. Segundo ele, “Joaquim Nabuco e André Rebouças defendiam duas abolições. Não só a Lei Áurea, mas outra, para integrar os ex-escravizados”.

Na última quinta-feira (13), celebrou-se os 133 anos da abolição da escravatura. Mas será que tal data é mesmo celebrada? Nos últimos anos, a comunidade negra convencionou a exaltar mais o 20 de novembro, dia da Consciência Negra, do que o 13 de maio, quando em 1888 a Lei Áurea foi assinada.

O fato é que o negro foi deixado “à própria sorte” com o fim da escravidão legal. Essa “abolição inconclusa” é evidenciada pelas desigualdades raciais que se perpetuam até os dias de hoje e impedem a efetivação da liberdade e das condições essenciais para o bem-estar da população negra.

Quase dois anos após essa fala de Laurentino, o autor best-seller anuncia o segundo volume de “Escravidão”, a ser lançado pela Globo Livros em 22 de junho, e que já pode ser adquirido na pré-venda na internet. Para o escritor, “a escravidão é assunto de todos nós”.

“No Brasil, você é descendente de escravizados, de alguém que se beneficiava da mão de obra deles ou dos imigrantes que vieram substituí-los. O padre Antônio Vieira escreveu que o Brasil tinha ‘o corpo na América e a alma na África’. Enquanto negarmos esse passado, somos um país sem alma”, afirma.

Para trazer uma reflexão sobre o 13 de maio e inspirada na fala de Laurentino Gomes, a reportagem do JP convidou alguns militantes da causa negra de Itu para responderem a seguinte pergunta: “Por que precisamos de uma segunda abolição?” Confira as respostas:

Ezequiel Franco, consultor de mídia social

Ezequiel Franco

Para que a discussão se amplie é fundamental compreender que estamos em um lugar de tratamento diferente. É preciso reconhecer o racismo. (Marielle Franco) A população negra sofre o modus operandi do fim da escravidão, feita por uma sociedade racista que não queria ver o negro incluso na sociedade, de lá para cá a população negra lidera índices de extrema pobreza, desemprego, de mortes pela mão do Estado, a segunda abolição é realização da superação do racismo e quaisquer formas de opressão por meio do Estado. E penso que temos que continuar lutando por reparação histórica. 13 DE MAIO: NÃO FOI ISABEL, FOI LUTA!”

Fátima do Carmo Silva, professora

Fátima do Carmo Silva

“Liberdade é poder ir e vir sem medo. Liberdade é ver seu filho voltar para casa, sem nada ter-lhe acontecido; Liberdade é poder entrar em uma faculdade e poder dar continuidade até o objetivo esperado; Liberdade é poder ter seu emprego com remuneração justa e sem coerção; Liberdade é poder ter sua religião sem que haja impedimento e humilhação; Liberdade é ter seus usos e costumes culturais, sem ser ultrajado (a) pelo seu estereótipo; Liberdade se adquire com equidade e igualdade de condições como seres humanos que somos, mas é preciso uma segunda Abolição?”

Sérgio de Souza, advogado

Sérgio de Souza

“É importante lembrar, o movimento negro e grupos identitários não comemoram o 13 de maio. Salvo a umbanda que cultua o dia dos pretos velhos. A data não remonta a luta do negro, e sim o ato da princesa ‘benevolente’ que o ‘libertou’ sancionando uma lei que em sua natureza trazia interesses políticos das elites antes escravocratas. É justamente onde surge a necessidade de uma ‘segunda abolição’. Reconhecer o racismo e seus efeitos nocivos é parte disso. Algo que suplante a letra da lei e legitime o seu espírito. Que não se limite ao papel, que promova a igualdade, conquiste consciências e efetive direitos. O 13 de maio de 1888 findou com o modo de produção baseado no trabalho escravo, mas sequer garantiu acesso e direitos ao negro. A segunda abolição é promover igualdade concreta. Ainda que isso revolte descendentes de senhores de escravos”.

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