Um estudo feito pelo Instituto Sou da Paz e publicado com exclusividade por Universa mostra um crescimento de 40% nos casos de feminicídios cometidos dentro de casa entre 2018 e 2019. Em comparação com o total de vítimas fatais, 70% delas foram assassinadas dentro de seus lares.

“O fato de a maioria ser dentro de casa dificulta muito que os serviços policiais acessem essa vítima e joga luz em outra questão: como se estrutura a rede de acolhimento por parte de outros serviços? Como o sistema de saúde, que precisa prestar serviço psicológico, pode atuar? E a assistência social?”, afirma a diretora do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo.

“No geral, só ficamos sabendo do problema quando acontece algo fatal, quando o crime foi consumado. Mas precisamos de ações para prevenir, antes que culmine em morte.”

A ONG analisou os registros criminais de todo o estado de São Paulo, tendo como base os números disponibilizados pela SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo) e pelas corregedorias das polícias Civil e Militar. Os dados totais englobam os crimes consumados — 130 e 173 em 2018 e 2019, respectivamente — e tentados — sete nos dois anos.

Autores dos crimes são conhecidos, mas há poucas prisões em flagrante

O boletim divulgado pela ONG mostra também que, em cerca de 83% dos casos, a vítima conhecia o autor do crime. Isso deveria possibilitar as prisões em flagrante, já que, no geral, se sabe quem cometeu o crime.

Mas, como explica o estudo, “apesar do alto percentual de autoria conhecida, vemos que o número relativo de prisão em flagrante é bem menor”. Em 2019, só aconteceu em 44% das vezes.

“Por se tratar de um tipo de crime que muitas vezes conta com testemunhas e em que há relação próxima entre vítima e autor, no geral sabe-se quem o realizou, mas em muitos casos o autor foge do local antes da chegada da polícia”, diz o levantamento.

“Aqui é importante questionar a capacidade investigativa da polícia, se esse serviço é priorizado nos casos de feminicídio. Não estou afirmando, é uma dúvida. Acho que os números são importantes para entrarmos nessa análise. Precisamos garantir que nenhum caso fique sem esclarecimento.”

Aumento de vítimas com mais de 70 anos

Outro dado importante é que as mulheres assassinadas são de diferentes faixas etárias, sendo que a maior incidência é entre 25 e 29 anos, representando quase 35% dos registros.

O número de vítimas com mais de 55 subiu, sendo o maior salto visto na faixa das com mais de 70: foi de menos de 5% para 10% do total de casos, de um ano para o outro.

A análise minuciosa mostrou ainda que os finais de semana são os dias mais fatais para as mulheres: cerca de 40% de todos os assassinatos foram cometidos no sábado ou no domingo. “É uma consequência do aumento da convivência.”

Perigo cresce durante quarentena

É justamente a correlação entre os dados mostrando que a maioria dos crimes acontece dentro de casa e em dias de maior convivência do casal que faz acender o sinal vermelho durante o período de isolamento social vivido atualmente, para conter a pandemia de covid-19.

“Estamos tentando nos debruçar sobre esses números. Ouvi de policiais que não houve aumento de registros na quarentena. Precisamos entender que sim, tem chance de aumentarem os casos, mas também que pode ficar mais difícil fazer um boletim da ocorrência. O fato de estar todo mundo em casa dificulta a saída para o registro”, diz Carolina. “Por isso, vamos precisar ser mais hábeis no monitoramento, os serviços públicos terão que se adaptar.”

Faltam informações sobre raça

Carolina alerta para o problema sobre a falta de um tipo específico de dado, relacionado à raça das vítimas. “Em 2018, não havia informação sobre isso. Em 2019, apenas 18% dos registros tinham. É muito baixo e inviabiliza uma análise”, diz a diretora da ONG.

“Mas o fato de não ter esse dado mostra como não é um ponto prioritário. Porém, é muito importante sabermos disso, pois precisamos entender as diferenças dos casos para endereçar melhor as políticas públicas”, afirma.

Cerca de 10% dos homens se suicidam após matar a mulher

Em 33 casos, o autor se suicidou após matar a mulher. Em 2, reagiu à chegada da polícia. As mortes representam 12% de todas as ocorrências e, como diz o estudo, “reforça a complexidade e o profundo enraizamento social ou identitário desse tipo de crime”.

“O suicídio pode ser indicativo de diversas dinâmicas como a perda de propósito ou de identidade do autor fora de um relacionamento desfeito ou diante da alta possibilidade de punição social, assim como pode indicar feminicídios cometidos quando o autor já pretendia cometer suicídio e não permitiu a continuidade da vida da mulher sem sua presença”, conclui o estudo.

“É um percentual importante de se analisar porque mostra que precisamos olhar também para os agressores e realizar trabalhos com eles, psicológicos e de formação, para evitar mais crimes”, afirma Carolina.

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