A cantora Maria Gadú abriu a transmissão da 25ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo — Foto: Reprodução/ canal Dia Estúdio

A Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo realizou, neste domingo (6), sua 25ª edição, a segunda com uma programação inteiramente virtual por conta da pandemia de Covid-19.

Além de apresentações musicais, o evento também trouxe discussões sobre o vírus HIV e a Aids, que foram o tema deste ano.

Nesta edição, a cantora Maria Gadú abriu a parada ao som da música “O Tempo Não Para”, de Cazuza. A cantora Glória Groove e artistas como Sandra de Sá, Lia Clark, Matheus Carrilho e Pepita também se apresentaram.

A dupla de influenciadores digitais Eduardo Camargo e Filipe Oliveira, do canal Diva Depressão, ficou responsável por entreter o público ao longo das oito horas de programação, que ainda deve contar com show da cantora Pabllo Vittar (veja como acompanhar o evento online).

Gloria Groove se apresenta na edição virtual da Parada LGBT+ de São Paulo neste domingo (6) — Foto: Reprodução/YouTube

Este é o segundo ano consecutivo em que não ocorre o famoso desfile de trios elétricos pela avenida Paulista e pela rua da Consolação. Em 2020, a celebração, que ocorreria em junho, foi adiada para o segundo semestre por causa da pandemia, mas acabou sendo realizada somente pela internet. As transmissões ao vivo chegaram a 11 milhões de visualizações.

Segundo a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT – SP), o intuito de adaptar o formato do evento ao contexto atual é promover um momento de celebração da vida e do amor em meio à pandemia. Já a escolha do tema deste ano tem como objetivo combater o estigma e o preconceito relacionados ao HIV (sigla em inglês para vírus da imunodeficiência humana) e à Aids (síndrome de imunodeficiência adquirida, em inglês), doença provocada pelo vírus.

Parada do orgulho LGBT em São Paulo — Foto: Nacho Doce/Reuters

“HIV/Aids: Ame + Cuide + Viva +”

Em 2021, o primeiro caso de Aids diagnosticado em território brasileiro completa 40 anos. Neste período, houve um enorme avanço nas formas de prevenção contra a infecção pelo HIV e nos tratamentos existentes, além de um salto na qualidade de vida das pessoas soropositivas. Atualmente, o Ministério da Saúde estima que, no Brasil, vivem 920 mil pessoas soropositivas para o HIV, ou seja, que já foram infectadas pelo vírus.

Nos últimos anos, os dados de boletins epidemiológicos do ministério mostram um aumento expressivo no número de casos, principalmente entre adolescentes e jovens.

“A gente vê que, quando fala de HIV para um público com mais de 40 anos, o que vem à memória são imagens de diversas figuras públicas que faleceram de Aids numa época em que a gente não tinha um tratamento tão eficaz quanto a gente tem hoje”, explica Mirian Dal Ben, Infectologista do Hospital Sírio-Libanês.

“Esse público que está entre 15 e 29 anos não tem muitas lembranças desse HIV que mata, então é uma geração que tem menos medo da doença e que não se importa tanto em pegá-la. Por isso, se cuidam menos, por já saber que a doença tem tratamento”, finaliza.

Estigma na comunidade LGBT+

Entre 2010 e 2020, foram diagnosticados 183.169 homens que tiveram exposição ao vírus após terem relação sexual sem proteção, sendo que em 62,8% dos casos os parceiros eram pessoas do mesmo sexo. Para a infectologista Mirian Dal Ben, este número se deve à falta de políticas públicas e ações de prevenção que tenham um olhar direcionado para este público.

Preservativos masculinos e femininos são distribuídos de forma gratuita pelo SUS — Foto: Raul Zito/G1

O vice-presidente da APOLGBT-SP, Renato Viterbo, acredita que o tema foi por muito tempo um dos maiores tabus na comunidade LGBT+ e que ainda existe muito preconceito em torno do assunto.

Durante anos, a Aids foi associada à homossexualidade, chegando até a ser apelidada de “Peste Gay”, já que os primeiros relatos da doença, nos Estados Unidos, foram em homens homossexuais que estavam desenvolvendo uma síndrome de imunodeficiência.

“É importante entender que o HIV e a Aids não são exclusividade de algumas pessoas ou determinados grupos. É um tema que deve ser abordado com inteligência, empatia e boa vontade por toda a sociedade, porque está presente em diversos recortes sociais, étnico-raciais, religiosos e geográficos“, disse Cláudia Regina Garcia, presidente da APOLGBT – SP. “Mas também é importante tratar o assunto com leveza para podermos amar mais, cuidarmos mais uns dos outros e vivemos mais e melhor”, acrescentou.

A cantora Mel C, ex-Spice Girl, com a bandeira do movimento LGBT+ durante a 23ª Parada LGBT de São Paulo. — Foto: Celso Tavares/G1

De acordo com Mirian Dal Ben, casos de transmissão do HIV em atos sexuais entre mulheres são extremamente raros, mas ainda assim é preciso se prevenir contra outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

“A gente sabe que a população trans, por exemplo, principalmente aquelas pessoas que acabam tendo o sexo como fonte de renda, é um público que está mais vulnerável à exposição ao vírus. Então, a gente precisa de políticas que estudem mais estre grupo e que falem abertamente sobre relações sexuais e como essas pessoas devem se prevenir, sem utilizar discursos estigmatizados.”

Os reflexos da conexão equivocada entre sexo, orientação sexual e uma IST ainda podem ser percebidos na atualidade. Um estudo realizado com pessoas soropositivas da comunidade LGBT+ pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS – BR), entre abril e agosto de 2019, mostrou que:

  • 81,8% concordaram que é difícil contar às pessoas sobre serem soropositivos para o HIV;
  • 75,5% disseram esconder das pessoas que são soropositivos para o HIV;
  • 41% dos entrevistados já foram discriminados por membros da própria família;
  • 36,7% concordaram com a afirmação “sinto vergonha por ser soropositivo para o HIV”.

Violência contra LGBT+

Além da questão da diversidade, a Parada de SP também é símbolo de luta por direitos, principalmente à vida e à liberdade. Em uma decisão histórica tomada em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que atos preconceituosos contra homossexuais e transexuais sejam enquadrados no crime de racismo.

Parada do Orgulho LGBT completa 25 anos em São Paulo com evento virtual neste domingo (6)

Parada do Orgulho LGBT completa 25 anos em São Paulo com evento virtual neste domingo (6)

No mesmo ano, o Grupo Gay da Bahia, ONG brasileira criada na década de 80, com intuito de defender os direitos de homossexuais no país, divulgou uma pesquisa na qual São Paulo apareceu como o estado em que aconteceram mais mortes violentas de pessoas LGBT+. Em âmbito nacional, a maioria das vítimas foi de homens gays, correspondendo a 52,9% do total.

Há anos, o Brasil se mantém na posição de país que mais assassina pessoas transexuais por ano. Em 2020, ocorreu o equivalente a um caso a cada dois dias, conforme apontam os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra).

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