Por Anita Lucchesi *

No final de 1912, a Cia Fiação e Tecelagem São Pedro, situada em Itu, interior de São Paulo, possuía cerca de 200 operários. Na fiação, eram 21 homens, 6 mulheres, 28 meninos e 2 meninas; enquanto na preparação trabalhavam 23 homens, 18 mulheres, 4 meninos, 20 meninas e na tecelagem estavam 30 homens e 35 mulheres. Estima-se que, no decorrer da sua primeira década, a fábrica chegou a ter 600 operários, cerca de mil se fossem somados aqueles da fiação Maria Cândida, construída em 1924, pelos mesmos donos, para suprir a crescente demanda da tecelagem. Hoje, um museu de arte ocupa os galpões da tecelagem e também aqueles que foram da confecção do famoso Jeans Harley – uma nova empreitada da São Pedro para diversificar seus produtos nos anos 1970.

A fábrica foi construída às margens do Córrego do Guaraú-Brochado e da Ferrovia Ytuana. Os trabalhos de marcação e nivelamento do terreno começaram em janeiro de 1911, com projeto encabeçado pelo arquiteto franco-brasileiro Louis Marins Amirat. No final de 1912, a São Pedro contava com 150 teares e cerca de 200 operários, tendo produzido 564.416 metros de tecidos brancos e tintos; e uma média de 3.000 quilos de fios crus e tintos. Assolada por uma crise, ela encerrou seu funcionamento em 1990.

Mas quem dava vida a essas máquinas? Quem, de fato, vendia sua força de trabalho para os acionistas sanpedrinos? Como dizem na região, “gente de quem” eram essas pessoas?

Seria mais fácil responder ao velho chavão: de “Ytú”, se quiséssemos apenas indagar o passado das famílias de acionistas, afinal, não é novidade que os anônimos são bem menos documentados que os de renome. Por isso, é fundamental buscar a história daquelas pessoas, ir além dos números e investigar a passagem de operários e operárias (adultos e crianças!) que permitiram o sucesso da Tecelagem São Pedro. Afinal, quem era a força trabalhadora do chão da fábrica? Quem “picava ponto” todos os dias?

Atrás dessas respostas, o museu começou a convidar ex-operários e operárias para revisitar seu antigo lugar de trabalho, em uma atividade que seguiu as vocações da história pública. Em “De Volta à Fábrica”, os participantes foram convidados a compor uma força-tarefa para reunir memórias sobre a Fábrica. A população de Itu e região foi incentivada a contar suas histórias e participar de uma construção coletiva para a primeira exposição do Museu São Pedro, que cruzou o acervo artístico da instituição com o passado da Fábrica São Pedro e o patrimônio industrial de Itu.

Pensando a poética do espaço, o filósofo Gaston Bachelard nos lembra que a casa é “nosso canto do mundo”. Pelos seus diversos usos e vivências que proporcionou, a “casa” da tecelagem, dessas pessoas e do museu, deixou de ser um simples espaço com construções e adquiriu significado cultural, tornou-se também lugar de memória e de pertencimento. “Ai, que saudade, meu Deus do céu…” (…) “Ai, ai que saudade! Eu falo assim: ‘se a São Pedro voltasse de novo eu acho que eu era a primeira a tava lá na porta com o meu currículo ó…”, disse uma das participantes. Outra, apontando para um antigo galpão da confecção de jeans, comentou: “Por ali eu não lembro, mas aqui, eu trabalhei aqui. E aqui nessa rampinha aqui na hora do almoço a gente sentava tudo aqui…sentava por aqui assim, ficava batendo papo…”. Assim, pelos relatos de diversas gerações que trabalharam na fábrica, a história da tecelagem vai ganhando forma. E quando se fala em gerações, são famílias e famílias, muitas, inclusive, que tiveram seu enlace inicial marcado pela São Pedro. “A minha mãe conheceu o pai lá [na Fiação], né?” – diz uma ex-costureira – (…) “Pois é, muitos casais, muitas famílias surgiram lá…”.

A história é feita de pessoas e são as pessoas, com suas bagagens, que chegam ao museu, compartilhando um pouco do que viveram nos idos anos do seu período na Cia Fiação e Tecelagem São Pedro, primeiro emprego de muitos e nome carimbado na aposentadoria de outros tantos. Iniciativas como “De Volta à Fábrica” podem ensinar muito sobre aspectos da vida operária, um traço fundamental na história do desenvolvimento industrial brasileiro.

 * É doutora em História pela Universidade de Luxemburgo, Centro de História Contemporânea e Digital

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