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Joana D’arc Almeida, coordenadora de Igualdade Racial de Sorocaba, fala sobre a luta diária contra o racismo
Uma data que se faz necessária o ano todo
Joana é referência da luta pela cultura negra na cidade. Crédito da foto: Fábio Rogério (19/11/2019)

Em Sorocaba, a população que se autodeclarou preta equivale a 23.844 mil pessoas, ou seja, 4% da população total. O salário médio, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) era de R$ 1.062, enquanto o de pessoa que se declararam brancas era de R$ 1.843. Os dados são do último censo realizado no país. Os números evidenciam o que a rotina já mostra diariamente: a falta de espaço em diversos ambientes e o insistente preconceito contra negros. E quando esse espaço é buscado e conquistado, há um caro imposto a ser pago. O valor, muito mais figurativo que literal, custa esforço.

Essa foi a definição trazida pela coordenadora de Igualdade Racial de Sorocaba, Joana D’arc Almeida. Aos que parecem esquecidos nos outros 364 dias do ano, para Joana o Dia da Consciência Negra, celebrado hoje, não é uma data para ser comemorada e, justamente por esse motivo, se faz necessária.

Referência da luta negra em Sorocaba, Joana, 54 anos, passou a infância na rua Santa Terezinha e, mesmo sem saber, já era militante desde essa fase. Estudante de escola pública, foi a primeira da família a conquistar a graduação, quando se formou em pedagogia. Motivo de orgulho para a mãe, que era dona de casa, e o pai, que trabalhava com ferragens em construções.

Em sala de aula, como aluna ou professora — também sempre em escolas públicas — sempre se viu como a única negra da turma. “Para ter respeito dentro da sala, como aluna, tive que tirar as melhores notas. Você tem sempre que se destacar. É como um imposto a ser pago.” Pedro Henrique de Almeida Mascarenhas, 25 anos, é filho de Joana e acabou de se formar em Química pela Universidade de São Paulo (USP). Assim como a mãe, ele também foi o único aluno negro da turma. “É muita tristeza o auditório estar cheio e ter apenas um de nós. Nada mudou, é muito pouco.”

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Para a doutora em Antropologia, Josefina de Fátima Tranquilin, da Universidade de Sorocaba (Uniso), o combate ao racismo deve ser feito por meio da educação, da ciência e da cultura. “A consciência crítica é a melhor maneira para combatê-lo.”

Luta incessante

Apesar de ocupar o cargo de coordenadora de Igualdade Racial há dois anos, Joana ainda enfrenta episódios de racismo. Mesmo que de maneira velada, para ela, o racismo — ainda — está em todos os lugares.

O trabalho da coordenadoria é feito ao lado do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra. As organizações são responsáveis por promover políticas públicas relativas à promoção de igualdade social. Esses projetos incluem coisas que, para muitos, podem ser de importância pequena, mas representariam sinais de progresso social, explica Joana. “A questão dos partos para a mulheres negras, por exemplo. Ainda costumam aplicar metade da anestesia que seria dada para uma mulher branca. Ainda acreditam que a mulher negra é ‘mais forte’”, comentou sobre uma falha no âmbito da saúde.

O trabalho deveria ser destinado a pensar, majoritariamente, em planos para neutralizar o racismo ainda existente. Porém, essa não é a única tarefa da coordenadoria. São diversas as denúncias de racismo entregues nas mãos de Joana, como por trabalhadores dentro de empresas. Uma das lutas da coordenadoria é implantar a história da África no currículo escolar que, mesmo regulamentada por lei (número 10.639 de 2003), não é vista na prática. A ideia para cumprir a medida é ofertar cursos para os professores da rede.

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A coordenadoria também trabalha para a regularizar a situação dos haitianos residentes em Sorocaba, inserindo no mercado de trabalho e ensinando o português nativo. Os imigrantes precisam passar por um curso para conquistar oficialmente a naturalização, por meio de uma prova da língua nativa. “Ano que vem queremos montar um curso intensivo preparatório para essa prova, que é muito difícil.” Segundo a Prefeitura, são 316 haitianos assistidos pelos Centros de Referência e Assistência Social (CRAS) na cidade. “As coisas não acontecem só em novembro. Elas estão aqui o ano todo”.

Data é referência à morte de Zumbi dos Palmares

Uma data que se faz necessária o ano todo
Zumbi morreu 20 de novembro de 1695. Crédito da foto: Reprodução

O Dia da Consciência Negra é uma referência à morte de Zumbi dos Palmares — símbolo da luta pela liberdade e valorização do povo afro-brasileiro. Palmares surgiu a partir da reunião de negros fugidos da escravidão nos engenhos de açúcar da Zona da Mata nordestina, em torno do ano de 1600. Eles se estabeleceram na Serra da Barriga, onde hoje é o município de União dos Palmares, em Alagoas. Ali, por causa das condições de difícil acesso, puderam organizar-se em uma comunidade que, estima-se, chegou a reunir mais de 30 mil pessoas.

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Ao longo do século 17, Palmares resistiu a investidas militares dos portugueses e de holandeses, que dominaram parte do Nordeste de 1630 a 1654. Zumbi nasceu livre, em Palmares, provavelmente em 1655, e, segundo historiadores, seria descendente do povo imbamgala ou jaga, de Angola.

Ainda na infância, durante uma das tentativas de destruição do quilombo, ele foi raptado por soldados portugueses e teria sido dado ao padre Antonio Melo, de Porto Calvo (hoje, em Alagoas), que o batizou de Francisco e ensinou-lhe português e latim. Aos 10 anos, tornou-o seu coroinha. Com 15 anos, Francisco foge, retorna a Palmares e adota o nome de Zumbi.

Aos 25 anos, ele torna-se líder do quilombo. Em 1692, o bandeirante paulista Domingo Jorge Velho, uma espécie de mercenário da época, comandou um ataque a Palmares e teve suas tropas arrasadas. O quilombo foi sitiado e só capitulou em 6 de fevereiro de 1694, quando os portugueses invadem o principal núcleo de resistência, a Aldeia do Macaco.

Ferido, Zumbi foge. Resistiu na mata por mais de um ano, atacando aldeias portuguesas, e, em 20 de novembro de 1695, depois de ser traído pelo antigo companheiro, Antonio Soares, Zumbi é localizado pelas tropas portuguesas. Preso, Zumbi é morto, esquartejado, e sua cabeça é levada a Olinda para ser exposta publicamente. Um dos objetivos de terem feito isso com a cabeça dele era o de acabar com os boatos que corriam entre os negros escravizados de que o líder quilombola era imortal. (Aline Albuquerque – Programa de estágio / Supervisão: Rosimeire Silva)

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